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quarta-feira, 19 de março de 2014

Busca da felicidade

Todos, de alguma forma desejamos ser felizes. Não acho errado e muito menos feio ou desumano este desejo, me preocupa sim, a forma, o como, o preço disposto a pagar por felicidade, ou o possível descompasso entre a busca da felicidade e a insensibilidade com o humano e o social. No geral creio a busca pela felicidade como algo natural e humano, apesar de sinceramente crer impossível realizar qualquer viver a plena e absoluta felicidade. Não consigo ver a felicidade como algo absoluto, como algum estado de ser perene ou mesmo como uma condição possível de ser alcançada indiferente com o que se passa com os outros, e em alguns casos, conosco mesmo. Entenderia eu, desta forma, por acaso, a felicidade como algo impossível de ser alcançada? Absolutamente não. Entendo que uma realização do viver nos permitirá vários momentos felizes, como já nos possibilitou vários enquanto realizávamos até hoje nossa vida. Alguns humanos conseguirão mais destes momentos felizes, e outros realizarão menor quantidades de experiências felizes ao longo de seu viver, alguns terão momentos de maior concentração de experiências felizes, ou maior duração de suas experiências, mas todos, humanos socialmente normais e incluídos, teremos das duas experiências. O que não creio possível, ou pelo menos não creio humanamente possível, é aquela felicidade absoluta e perene, independente de tudo e de qualquer coisa, pregada como possível por alguns, que qualifico como no mínimo falaciosas ou interesseiras.  

A realidade do mundo e nossa própria realidade impossibilitam, pelo menos para os comprometidos com alguma dignidade humana e social, esta felicidade absoluta e perene. Como ser feliz sendo insensível com a dor, com o sofrimento, com a exclusão, com o abandono, com a opressão, com a exploração, com a fome, com a miséria que assola milhões de irmãos em espécie, com os preconceitos, com a prepotência e ganância de alguns, com as guerras, isto no mínimo é para mim desumano e de um descompromisso social atroz, além de uma total falta de comunhão e empatia para com os outros. Mas mesmo que o nosso mundo social fosse perfeito, existiriam fatos em nosso próprio viver que nos impossibilitariam, mesmo que momentaneamente, realizar a felicidade plena, e realizar sim, em contra partida, momentos de dor e de sofrimento: A perda de um filho amado, de seu parceiro amado, de um amigo amado, o sofrimento de algum deles, a chegada de doenças mais sérias, físicas ou mentais, principalmente as sem cura, a perda de um emprego nesta realidade econômica, ver seu único lar, comprado com dificuldades, ardendo em chamas, ou destruído por algum evento cataclísmico, além de possivelmente muitos outros eventos, nos levariam a realizar momentos de sofrimento.

Realizar o nosso viver, é ter este contínuo realizar pontilhado de momentos felizes e de momentos de sofrimento, assim buscar ser feliz seria conseguir maximizar o número e a qualidade dos momentos felizes e minimizar a quantidade e a intensidade dos momentos de sofrimento, tristeza e ansiedade, sabendo que sempre teremos pela frente momentos felizes e momentos de sofrimento, enquanto o futuro ousar ser presente que nunca é pois que já tornou-se passado para nós. 

A busca da felicidade é algo natural e humano, mas esperar encontrar uma felicidade plena e perene é, para mim, impossível, mas podemos e devemos valorar cada momento feliz, pois é humano querer ser feliz. Agora, se você me disser que és plenamente e perenemente feliz, eu vou ouvir e defender o seu direito de se expressar, mas sinceramente não acreditarei, ou preferirei não acreditar, assumindo que por alguma razão preferes mentir, pois que para mim aceitar que alguém possa ser plena e perenemente feliz implica em ter total descredito quanto a sua humanidade, quanto a sua sensibilidade pelo humano e pelo social, implica em vê-lo sem nenhuma empatia pelo mundo, implica em percebê-lo como desumano, e se chegar a sinceramente crer que você possa esta falando a verdade, serei obrigado a temer por seu comportamento social e humano. Posso estar errado? Sim, claro que posso estar, mas não existe hoje (pelo menos até este momento) a menor chance de aceitar que alguém minimamente comprometido com o social, que alguém humano e sensível as causas humanas, que alguém que preze por comungar com os humanos, possa ser plenamente feliz, e que alguém que consiga viver sem nenhuma empatia para com os que sofrem, sendo estes estranhos ou mesmo próximos, possa valer muito como ser humano. Desculpem-me os plena e perenemente felizes, prefiro não crer no que falam, pois o que decorreria de crer que falas a verdade, me faria vê-lo como um total insensível as causas humanas.

Na busca da felicidade somos eternos curiosos buscadores e aprendizes.





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