Não adianta escutar com ouvidos de não querer ouvir. Não adianta querer experimentar, com sentido de não querer realmente sentir, de não querer conhecer, aprender ou provar. A vida é caótica, somos reflexo direto e indireto deste caos que nos deixou ser em um histórico que já deixou de ser. Somos a imagem distorcida do subjetivo de nosso ser, simplesmente porque sou o que sou, o que o inconsciente subjetivo me faz ser, sou enfim algo de quase nada de mim mesmo, se por mim mesmo penso ser o que creio que sou, pelo tudo que sou, sem ser ideal algum, sem ser rascunho de nada, de nenhum projeto, de criador algum, sendo apenas a imanência do ser mental de todos os seres que me fazem ser únicos, sendo, gostando ou não induzido pelo que é, sendo aquilo que a emergência de meu circuito neural me faz ser.
Não adianta ouvir se no fundo o que desejamos fazer é falar, se somos surdos de bom ouvidos, surdos mentalmente do pensar e do buscar entender, se nos achamos donos do saber, autoridades de algum saber, proprietários da verdade, mas que em plena verdade, nada, ou quase nada, sabemos.
Enquanto o mundo roda, enquanto tudo gira, eu rodo a loucura de ser não o que gostaria de ser, onde sequer sei exatamente o que gostaria de ser. Não bastam bombas de mim, não façam de mim bombas, não me entregarei para a passividade que um dia me doei, não sou revolta sem causa, mas também não quero ser causa de revolta de ninguém, mas se minhas posições parecem loucas, pode ser a loucura da falta de verdadeira humanidade, de certa inação pela inclusão social, e se alguém me odeia, que pena, é porque não me entende, mas que bom, pois se me entendesse ou estaria realmente comigo, ou mais ainda me odiaria. Não basta ser a doação que me fez não ser eu, não basta fugir fingindo ser aquilo que nenhuma fuga me permite ser, pode não bastar ser algo de ousado pela inclusão social, mas me omitir é algo que me faz mais sofredor ainda, se não basta falar, gritar, ir para as ruas reivindicar ou protestar, o contrario é que valia nenhuma têm, a não ser perpetuar o que aqui já está, ou retroceder mais ainda ao conservadorismo que apenas serviu ao longo do tempo como defesa dos que já possuem extrema defesa do estado, do sistema, das leis, e por decorrência de quem possui o poder econômico, pois que as leis são reflexo do poder econômico e existem para legitimar o estado como refúgio e lar natural deste mesmo poder econômico. Não prego um estado anárquico, mas prego uma luta pela mudança das leis para que estas deem força a um estado economicamente, socialmente e humanamente mais justo, mais digno, mais libertário, mais equânime em direitos, oportunidades, defesas, deveres, proteção deste mesmo estado e distribuição de rendas e bens, e assim mais natural, orgânico e realmente mais universal.
Não adianta viver uma vida alienada em nós mesmos ou junto aos nossos grupos de interesses, nos omitindo de ousar pela transformação social deste mundo.

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