Costumo ouvir que o sonho acabou. Acabou como? Sonhar é livre, pessoal, e ainda é secreto, e o será, pelo menos, pelo tempo que desejarmos. O que pode ter acabado, para alguns ou para muitos, é a esperança baseada em algum sonho, mas como já comentei diversas vezes, a esperança é um atalho natural para a desilusão, por isso opto por viver em plena desesperança de tudo. Sonho sim, é natural, é livre, é pessoal e secreto, mas não espero nada que não dependa de mim, e mesmo assim, daquilo que de mim dependa, tenho clara percepção que o caos da realidade que nos permite existir pode inviabilizar ou agilizar minhas atitudes e comportamentos pelo atingimento de qualquer coisa. Assim, por características pessoais, não costumo dar maiores valores aos sonhos, a não ser a beleza plástica, a emoção, e a motivação que sonhos podem nos dar. Não, não estou dizendo que não sonho. É claro que sonho, às vezes até demais. A diferença está no como tento lidar com os sonhos. Por viver na desesperança, não valoro o sonho, absolutamente nada, acima do que ele é, um sonho. Mas o sonho sendo pessoal nunca acaba, ou melhor, somente acaba quando deixamos de existir como seres pensantes.
Se alguns de nós cremos nos sonhos como se realidades fossem, ou como se previsões de algum futuro fossem, nós é que estamos errados, não os sonhos em si. O sonho pode até servir de motivação, de ânimo, de coragem para lutar, mas é a luta presente, a entrega ativa, a doação a alguma causa, mesmo que de aparência impossível que faz do homem um ser com diferenciais de atitude e de respeito ao presente.
A realidade não é ética, moral ou justa, e nunca será, pois que a realidade é tão somente a realidade, cabe-nos a realização, nesta realidade do eterno contínuo momento presente, fazermos aquilo que se um dia sonhamos ou não, mas realizar aquilo que naquele momento é atitude, comportamento, ação, e comprometimento com a maximização da dignidade humana e social, ação e comportamentos estes sim, que no momento presente, devem ser éticos, não somente em relação ao homem ou ao humano, mas em relação também a vida como um todo, de qualquer nicho ecológico, e também em relação a natureza. Eu entendo que o termo ética é complicado, pois que não possui sentido universal, variando de local para local, de tempo para tempo, e de cultura para cultura, e no varejo, variando de pessoa para pessoa, mas aqui, a ética tem o sentido de respeito, resguardo, cuidado, atenção, dignidade, eu diria que tem um sentido quase ideal (não sou idealista, sou um realista, materialista com boas pinceladas de ceticismo), mas o que desejo passar em um sentido imanente de respeito individual, coletivo, e respeito este sim em relação a um cuidado e impactos universais, não a um pragmatismo total e absoluto, frio e mecânico, mas a uma prática de engrandecimento e de dignificação do natural, e assim diretamente de nosso planeta, dos nichos ecológicos, da vida, do humano, e do social.
O sonho não deve acabar, o que deve pelo menos diminuir é a clara tendência a darmos maiores valores ao sonho enquanto estes ainda forem somente sonhos. O que deve diminuir é nossa fraqueza em viver o presente na esperança dos sonhos que temos ou que já tivemos. Devemos viver o presente na ousadia de caminhar à frente, sem a presunçosa e arrogante ideia de caminharmos sempre para a frente, o caminhar á frente pode ser á frente em qualquer direção e sentido, algumas vezes até mesmo recuando, mas dando a cara a tapa e sendo vanguardista nesta caminhada coletiva, devemos ser revolucionários do amor e do humano realizar, devemos ser transformadores de nos mesmos e assim transformadores do existir, tendo em mente não nossos interesses pessoais ou corporativos, não dos nossos ou dos que nos são importante, não daqueles que comungam de nossas ideias e crenças, mas sim tendo em mente os interesses coletivos, de todos, destes e daqueles, do tu e do ele, mas principalmente dos eles que se perderam por abandono, por exclusão, por omissão ou por desamor. Enfim tendo a ousadia de caminhar à frente em plena realização empática com todos, mais empática ainda com os que sofrem.
Enfim, o sonho é livre e bom, pelo que pode movimentar
nossas ações, mas sonhar sem atitudes, sonhar sem ousadia de tentar, sonhar sem comportamento e sem reação, de pouco vale. Sonhar sem atitudes não é sinal direto de delírio, delírio seria acreditar que o sonho é real, ou que basta fé e esperança para que ele se torne real, mas para mim sonhar sem reação é sinal de medo, de prostração, de domínio externo, de falta de
amor próprio, de baixa autoestima e de ausência ousadia transformadora.

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