Algum sofrimento é inerente a realização do viver humano. Apesar da felicidade absoluta e total ser um estado utópico a ser procurado, nunca será alcançado, não porque ninguém seja digno de uma felicidade total, de uma alegria máxima, de um estado de perfeita paz, uma vez que o caos do dia a dia e o próprio sofrimento dos irmãos devem naturalmente evitar que encontremos esta tão desejada paz absoluta e a felicidade máxima em essência.
Todos sofremos. Todos, de alguma forma, estamos em contato com tristezas, dores, sofrimentos, frustrações, medos, falsas esperanças, angustias, ansiedades, perdas de parentes ou amigos, e desgostos, porem fazer destes estados momentâneos, naturais, um estado de desespero absoluto, significa que cruzamos o limiar da normalidade, quer por motivos verdadeiros, quer por descontrole emocional, quer por desequilíbrio bioquímico, quer por alguma doença cerebral, quer mesmo por falsa valoração da realidade que nos cerca, e assim necessitamos de ajuda humana, médica ou psicológica. Necessitamos de apoio, necessitamos de amigos, necessitamos de irmãos, necessitamos resgatar nossa autoestima humana, necessitamos de amor, necessitamos de compreensão, e em muitos casos necessitamos de tratamento ou mesmo de intervenção cirúrgica. Em alguns casos, e são muitos, necessitamos de inclusão social, pois que acabamos sofremos exatamente pela dor do abandono, da exclusão social, da exploração, do preconceito e da opressão, nestes casos a transformação da sociedade (pela transformação de nossos seres) é o único caminho real para alavancar alguma felicidade a milhões de seres humanos. A caridade pode minimizar, mas permanece o sofrimento do necessitar da própria caridade, além do que a caridade não alcança a todos e ela por si só, apesar de prementemente necessária, nada transforma, e acaba mesmo por ajudar a perpetuar o estado geral de abandono e exclusão de muitos.
Mas escrevo isto para chegar até o problema do suicídio. De repente, percebo que já se somam mais de quatro conhecidos que, em curto período de tempo, se drogam (não necessariamente com drogas ilícitas, mas com medicação) e chegam ao suicídio. Algo está acontecendo conosco. Abrir mão da vida, alguns tendo cônjuge e filhos, outros vivendo com os próprios pais, deve ser a solução de pleno e total desespero e desamor, sendo exatamente o oposto do altruísmo, em que entregamos nossas vidas (ou a colocamos em risco) pelo bem dos outros. O sofrimento e a loucura do viver estão realmente em um nível de pressão muito elevado, quase violento, ou mesmo acima disto, pois que praticamos a violência máxima, contra nós mesmos. Mas por que pessoas aparentemente normais chegam a este estado de desespero, que preferem abrir mão do viver, alguns deles inclusive com filhos, trocando tudo por um fim trágico para os que ficam, e sem retorno?
Com certeza não sei a resposta para todos, talvez mesmo para nenhum dos casos. Quem sou eu para definir o suicídio como pura fraqueza, ou como doença mental, mas entendo que algo está muito errado. Sinceramente entendo que todos são livres para disporem de suas vidas como desejarem, inclusive para abrir mão dela, mas o que me choca, não é abrir mão de suas vidas, o que me choca é, me perdoem a forma dura de falar, serem covardes com seus próprios filhos, parentes e amigos, é deixarem os filhos ainda em formação sem o apoio de uma mãe ou de um pai. Não adianta escrever no vidro que ama seus filhos e se suicidar. Estas pessoas perderam totalmente a autoestima, e a capacidade de racionalizar os reais sentidos do viver, mas quem sou eu para saber exatamente o quanto doía para cada um o permanecer vivo. Quem sou eu para julgar, se mal consigo um estado empático com os vivos, me esforço neste sentido, mas me falta ainda muito caminhar, como ser empático com alguém se foi de forma tão trágica e dolorosa para quem os amava, principalmente por que me divido entre crer que cada um é livre para dispor de sua vida (desde que ninguém mais dela dependa socialmente e humanamente), e ao mesmo tempo ter o conceito de que esta escolha não me parece ser a única e nem a melhor quando outros dependem de você. Mas fico triste e revoltado de imaginar quão doloroso e sofrido devem ter sido os últimos dias de alguém que troca sua própria vida pelo nada, por não suportar mais viver. Como me revolta imaginar que eu ou que amigos, parentes e colegas destas pessoas não foram capazes de perceber quão sofrido era viver para aquela pessoa. Quanto me machuca e incomoda saber que éramos insensíveis àquela dor. Quanto me enoja saber que como humano não fomos capazes de ser empáticos o suficiente, amigos o suficiente, irmãos o suficiente, parceiros o suficiente e por que não humanos o suficiente para nos fazer confiáveis a estas pessoas, para que elas pudessem desabafar e se abrirem conosco, dividindo assim o enorme fardo que não mais aguentavam carregar. Mais me repudia ainda a ideia de que alguns deles possam ter tentado dividir a dor deles, e nós presunçosos, insensíveis e irresponsáveis, não lhes demos ouvidos, créditos ou simplesmente não lhes demos ombro amigo para chorar, olhos sinceros para penetrarem, e respeito humano suficiente para entender e estar com eles nesta dor.
A sociedade perdeu o sentido do respeito e do amor de amizade, estas pessoas não encontraram outras pessoas que pudessem realmente considerar amigos para se abrirem e dividir o peso de seu sofrimento. Religiosas, creio eu, podendo estar totalmente errado, que todas elas devem ter apostado em orações e em esperar, na falsa esperança de que sempre a vida reage a alguma oração.
Quem sou eu para dizer o que lhes sobrava e o que lhes faltava, mas faltavam-lhes amor pela vida, ou pelo menos faltavam-lhe valores pelo que deveriam amar mais a vida do que a dor que lhes açoitava a mente. Talvez tenham-lhe faltado, além de irmãos em quem minimamente confiar, também algum conhecimento e discernimento para se entenderem, e saber que já havia chegado a hora (ou passado da hora) de procurar apoio médico, psiquiátrico, neurológico. Sem uma resposta absoluta, creio sinceramente que todas sofriam de males cerebrais que afetavam diretamente o seu mental, e que somente um tratamento sério poderia ter desfeito este estado mental de momento que os levaram ao suicídio. A dor subjetiva havia dominado seu pensar, seu ser, seu existir, e a mente começa e distorcer a já desequilibrada condição mental, onde entendo, algum socorro emergencial era necessário. Chega o momento que a psicologia não possui a menor força de transformação, que a psicanalise é totalmente sem potencial, que a fé de nada mais serve, pois que a esperança foi destruída por si própria por nunca se realizar, e apenas um tratamento sério, bioquímico ou mesmo cirúrgico pode dar a transformação necessária, que pode a posterior ser acompanhada de psicologia ou psicanálise, e de muito amor humano. Entendo que talvez tenham-lhe faltado, realmente, confiarem em si, pela própria característica do estado mental em que se encontravam.
Sinceramente mal sei o que se passa em minha mente, assim talvez não tenha a menor competência para falar das mentes dos outros, mas entendo que no básico de nosso circuito cerebral, encontra-se uma estrutura comum a todos nós, mas mesmo assim, únicos em existência, e que a própria realização do viver leva a existência de diferentes mentes em diferentes pessoas.
Mas todos deveríamos ter algum cuidado em perceber sinais. Amigos e colegas podem nos dar dicas de que estamos diferentes, familiares podem afirmar que não mais conseguem viver em paz com nosso comportamento, entendo que neste momento é chegada a hora de procurar ajuda, não somente nos amigos, mas ajuda profissional da medicina, e nunca somente na fé, ou na ajuda de curiosos. Muitas vezes, mesmo remédios comuns que tomamos, muitos deles por conta própria, como aqueles que experimentamos por vaidade para emagrecer, ou outros, afetam seriamente nosso equilíbrio neuro-hormonal e nos torna diferentes, outras pessoas. Às vezes a simples carência de vitamina B nos faz ser outra pessoa, mas infelizmente, aqueles que creem que a mente, o pensar, e o sentir são transcendentes, não se cuidam, pois não percebem ligação entre o circuito cerebral e o seu ser humano, entre o cérebro e a sua mente, entre o biológico e o mental.
Não sei exatamente o que está acontecendo, mas é muita ocorrência ao mesmo tempo, como a que soube a instantes, e que me levou a escrever este texto, de que mais um conhecido tomou vários comprimidos de “clonazepam”, mas teve a sorte de ter ajuda médica a tempo, e está em acompanhamento médico, mas aparentemente fora de perigo imediato.
Caramba, sei que somos fracos, sei que somos imperfeitos, sei que nosso corpo é cheio de falhas, cheio de fraquezas, exatamente porque a evolução não possui nenhum projeto, ou não possui caminhos que busquem o melhor. Sei que nossa mente é uma colcha de retalhos de circuitos super sensíveis, cheio de falhas. Sei que a evolução não teve tempo para adaptar nosso cérebro, e nossa mente a pressão da vida atual, basicamente somos símios com uma mente mais poderosa, mas sem tempo para se adaptar a loucura da vida (in)social e (des)humana de nossa sociedade. Com uma mente focada ainda em grupos pequenos, caçadores coletores, que de um momento para o outro se viu em plena explosão de sociedades super complexas, ingratas, injustas, muitas vezes nos perdemos no como gerenciar as dores mentais que sentimos, mas mesmo assim, algo deve estar errado.
Precisamos aprender a ser mais sensíveis com nossos semelhantes, mais humanos com eles. Precisamos nos mostrar disponíveis, nos fazendo acessíveis por eles. Precisamos mais do que nos mostrar responsáveis pelos outros, necessitamos aprender a viver compromissados por cada um deles, simplesmente por que cada vida é muito importante, e eu preciso ter a vergonha na cara de que além de escrever, é necessário viver e construir este sentimento de comunhão sincera para com todos os irmãos.

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