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sábado, 5 de abril de 2014

Valores


Ter o cuidado de viver “dentro” de valores, é em geral uma boa referência do viver, mas devemos ter o máximo cuidado de nunca esquecermos que valores são, via de regra, pessoais ou culturais, e assim, não podemos fazer de nossos valores, algo como valores absolutos, eles não o são, talvez nunca o sejam, por mais que os vejamos como perfeitos.


Valores não existem por essência na natureza, sendo assim, nunca serão qualidades primárias, inerentes a composição das coisas, valores sempre são qualidades secundárias, são qualidades compostas em nossa mente, em nosso subjetivo, em nossa forma de aprender a vida, e assim sempre serão em última análise qualidades pessoais, mesmo quando culturais. Em momento algum estou menosprezando ou relegando os valores que damos as coisas menores ou vulgares, tento apenas me lembrar sempre que valores, quaisquer que sejam, são meus, e que não os posso tomar como medida absoluta de nada. Creio ser impossível viver sem valores alguns, o que devo então fazer? Ter o cuidado de buscando valores, não desejar ou acreditar que os meus são por definição melhores que os dos outros, devo ter a sensibilidade de perceber quando os meus valores são piores socialmente que outros, devo ter empatia suficiente para mesmo acreditando que meus valores sejam melhores, entender, buscar compreender os valores dos outros, não apenas me colocando no lugar dos outros, mas com meu referencial de valores, pois isso não é ser empático, é apenas e tão somente imaginar como EU agiria no lugar daquela pessoa, mas sim tentar me colocar no lugar da pessoa com os seus valores, com a sua história de vida. Devo tentar me colocar no lugar daquela pessoa, como aquela pessoa, sem me colocar como pessoa no lugar daquela pessoa. 

Mas como busca-los, os valores, se eles não são absolutos?

Aqui reina a dificuldade maior, e uma das mais comuns e corriqueiras causas de desacordos pessoais por todo o mundo. Sendo pessoais, eles refletem muito da cultura, da política, do econômico, das religiões, e mesmo do secular. Assim, como princípio básico tento algumas atitudes, podem não ser as melhores, mas tende a me dar alguma forma mais clara e transparente de entender os valores dos outros, e ter algum princípio para aceitá-los ou rejeitá-los. Entender, não pode e não deve diretamente significar aceitação, se entendo que aqueles valores são injustos, desumanos, desleais, ou mesmo preconceituosos, devo me colocar firme e claramente contrário a eles, mas na maioria dos casos, mesmo valores diferentes dos meus, não chegam a ser desumanos, apenas diferentes, e assim devo respeitá-los, apesar de diferentes dos meus. 

De início tendo a tentar me colocar no lugar do outro, mas não como eu, e sim livre de mim, muitas vezes tento mesmo me colocar na sociedade cultural do outro. Porque ele pensa e age daquela maneira? E não, nunca, como eu agiria no lugar dele, naquela momento, naquela realidade e naquela maneira.

Em segundo lugar tento buscar o alcance final daquele pensamento, comportamento e seus valores embutidos, tanto os valores diretos, quanto tento perceber também aqueles valores mais sutis, que podem ajudar a compor aquele valor mais direto que percebo nos irmãos.
Depois tento colocar aquele semelhante no meu lugar, como ele poderia estar percebendo os meus valores?

Isto me ajuda muito a entender os valores de terceiros. Por definição tento me abster de qualquer preconceito nesta análise, e aí ocorre algo maravilhoso, evitando preconceitos analiso os valores dos outros que, por decorrência, mais ainda me livra de preconceitos, quanto mais entendo os seus valores. Um processo de recursividade positiva atua diminuindo continuamente meus preconceitos. Isto não significa que tudo é então possível. É lógico que não, não para mim. Quando analiso o alcance final dos valores dos outros, e mesmo dos meus, busco entender algo bem claro e firme, podem estes valores macular a dignidade natural humana? Podem eles levar ao preconceito, a segregação, a perversidade, ao menosprezo à vida? Podem levar a exploração e ao abuso? 

Se entendo que aqueles valores podem “indignificar” a vida, o humano ou o social, desprezo aqueles valores, e se possível repúdio abertamente os mesmos, mas o que tenho percebido é que na maioria absoluta dos casos, valores diferentes dos meus não são absolutamente indignos ou revoltantes por si só, o que falta é apararmos arestas e poderemos assim conviver bem, desde que saibamos os limites de cada um. O problema principal nas diferenças de valores está em ter a crença que os meus são os únicos verdadeiros, que os outros são indignos, que os meus, desenvolvidos ou aprendidos por mim, refletem aqueles valores que podem dignificar o humano, ou em pior causa, são os verdadeiros porque foram revelados por algum deus, ou por alguma autoridade do saber. Valores não precisam ser iguais para dignificarem o humanos. Valores seriam algo como caminhos, posso chegar a onde desejar por diferentes caminhos, talvez alguns sejam mais fáceis, alguns mais rápidos, alguns podem ser mais rápidos, mas terem algum custo adicional, entretanto o que importa é que posso caminhar por diferentes rotas e chegar ao mesmo destino, assim entendo os valores, podem ser distintos, mas podem no final, todos eles, terem o mesmo ideal, o da dignificação do viver, do humano, do social e de nossa natureza. Podemos como adultos de bem, até mesmo discutir nossos valores e entender o porquê de cada um deles.

O que importa é que valores, ética, princípios ou mesmo a moral atuante, são necessários para uma vida em sociedade, nasceram por necessidade desta convivência pacífica, ordeira e humana, em sociedades cada vez maiores e impessoais, na qual cada um tem de abrir mão naturalmente de algo, para manter de forma digna esta sociedade, e acima disto manter a natureza como um todo, pois que esta é o nosso lar, gostemos ou não, e mesmo para aqueles que creem em algo depois, terão que aqui viver por algum tempo, e mais ainda, este será o local de vida para nossos filhos, netos e demais descendentes, assim resguardar este planetinha deve ser nossa meta e nosso desafio também, além de resguardar uma sociedade livre, inclusiva, socialmente equilibrada e economicamente distributiva (todos os bens são finitos, quando alguém tem o que não precisa, ou tem mais do que precisa, estes mesmos bens faltarão para outros, é tão simples que me revolta a insensibilidade deste capitalismo neoliberal, mas isto é assunto para outros textos), onde a humanidade possa crescer digna e com alguma felicidade.

Uma vez que nossa sociedade não vive em um ambiente anárquico (lembrando que pessoalmente até entendo ser possível uma sociedade filosoficamente anárquica), respeitar a legalidade e trabalhar por sua transformação, sempre em busca da dignidade humana e social é nossa responsabilidade também.

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