Nem antes e nem depois, o agora já é suficiente para me mostrar o quanto estou afastado da humanidade que me deveria diferenciar como animal humano.
Tenho muito que caminhar, tenho muito o que construir em mim mesmo, tenho muito que me transformar. A situação não é fácil, eu creio que saiba bem disto. Se a sensibilidade humana, que como sensibilidade é natural pois que existe no reino animal, não aflorou como sentido natural de ser humano, não consigo ser empático com os que sofrem, com os excluídos, com os miseráveis, com os oprimidos e com os explorados, e posso acabar achando que eles sejam fracos, perdedores, e fracassados por estarem nesta situação, e culpa-los por isto, ao invés de culpar o sistema como um todo, de culpar nossas opções econômicas e politicas, e assim posso passar a me comportar cada vez mais como desumano e não como humano. Entendo que a sensibilidade está dentro de cada um de nós, ou pelo menos da maioria absoluta de nós, a menos daqueles que possuam desvios mentais e morais por deficiência ou má formação cerebral. Mas se fosse tão fácil assim, não estaríamos reproduzindo esta sociedade naturalmente excludente e aproveitadora. Entendo que, mesmo que no início o façamos não de forma natural, devemos fazer um sério e sincero esforço de nos colocarmos nos lugares daqueles que sofrem, não nos colocando como somos, com nossa cultura, com nossos conhecimentos e recursos, não nos colocando lá para vermos como agiríamos e como nos comportaríamos naquele espaço-tempo, mas sim tentando nos colocar naquele lugar, naquele tempo, com aquela mesma realidade que o irmão experimenta, com seu conhecimento, com sua cultura, com suas limitações, e tentarmos sentir na pele, na carne e em nossa alma mental, aquilo que eles podem estar sentindo, e assim, aos poucos, afloraremos nossa sensibilidade humana, e nos colocaremos cada vez mais disponíveis a eles, cada vez mais compromissados com revolucionar a realidade de vida deles, cada vez mais lutar pela sua inclusão e pelo fim da exploração, dos preconceitos e da opressão. Entendo que a sensibilidade humana é a chave real de nos colocarmos em marcha pela transformação de nosso ser e ativamente pela transformação de nossa sociedade, do sistema como um todo e das prioridades político-econômicas e sociais. Fácil de falar? Eu sei. Difícil de fazer e alcançar? Também sei. Impossível de ser feito? Claro que não. Temos de começar. Compraremos brigas pelo caminho? Muitas. Criaremos inimigos? Sim, talvez bastantes, mas teremos a certeza de estarmos tentando, de estarmos nos expondo pelos que sofrem, de estarmos construindo um presente e um futuro mais humano e digno para todos.
Nem antes e nem depois, o agora já é suficiente para me mostrar o quanto estou afastado da humanidade que me deveria diferenciar como animal humano.

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